António Militar (Portugal/Brasil)

Santo António, o mais famoso militar do regimento de Lagos. Parte 1

Durante a Guerra da Restauração (1640-1668), a fé dos soldados portugueses atribuía a Santo António muitos dos êxito das acções militares, de tal modo que D. Pedro II, por alvará de 24 de Janeiro de 1668, determinou que, “por tão patriótico serviço”, fosse alistado como praça no Regimento de Infantaria de Lagos.
No dia 12 de Setembro de 1683, D. Afonso VI promoveu Santo António ao posto de capitão.
Em 25 de Março do ano de 1777, D. Hércules António Carlos Luís Joseph Maria de Albuquerque e Araújo de Magalhães Homem, major comandante do regimento de Lagos, lavrava em auto e endereçava ao rei pedido para que o santo fosse promovido a major. Está registado: “certifico que não existe alguma nota relativa a Santo António, de mau comportamento ou irregularidade praticada por ele: nem de ter sido em tempo algum açoitado, preso, ou de qualquer modo punido durante o tempo que serviu como soldado raso no regimento: Que durante todo o tempo, em que tem sido capitão, vai quase para cem anos, constantemente cumpriu seu dever com o maior prazer à frente de sua companhia, em todas as ocasiões, em paz e em guerra, e tal que tem sido visto por seus soldados vezes sem número, como eles todos estão prontos para testemunhar: e em tudo o mais tem-se comportado sempre como fidalgo e oficial: e por todos estes motivos acima referidos considero-o muito digno e merecedor do posto de major agregado ao nosso regimento, e de quaisquer outras honras, graças ou favores que aprouver a S. M. conferir-lhe. Em testemunho do que assinei meu nome, hoje 25 de Março do ano N. S. J. C. 1777. Magalhães Homem”.
No posto de capitão, Santo António recebia um soldo de 10.000 réis, que lhe foi abonado até 1779, ano em que passou a vencer o de 15.000 réis, como consta do livro de vencimentos e de vários mapas do regimento, existentes no Arquivo Histórico Militar. Como capitão ia sendo abonado o Santo dos soldos que competiam à sua patente, soldos que eram pontualmente entregues à irmandade de Santo António, até que o Marquês de Pombal determinou que deixassem de o ser, continuando o santo-capitão a “servir” gratuitamente. Mas logo no reinado seguinte de D. Maria I, o coronel do Regimento de Lagos, requeria, em Janeiro de 1780, que ao seu capitão Santo António fossem pagos os soldos em atraso e ainda (em virtude de o referido capitão, “o mais antigo dos reais exércitos”, se achar, de há muito, preterido na promoção) que o mesmo fosse promovido a tenente-coronel.
Em 1807, durante a invasão napoleónica, o próprio general Junot, comandante dos exércitos franceses, ao examinar os livros de matrícula do Regimento de Lagos, ordenou que continuasse a ser pago ao Santo oficial o devido soldo, como atesta o seguinte documento: “Sendo da Minha particular Devoção o Glorioso Santo António, a Quem o Povo d’esta Côrte, incessantemente e com a maior Fé, dedica os seus votos, e tendo o Céo abençoado os esforços dos Meus Exercitos com a Paz que se Dignou Conceder a Monarchia Portugueza, Crendo Eu piamente que a efficaz intercessão do mesmo Santo, ten concorrido para tão felizes resultados, Hei por bem que se eleve ao Posto de Tenente Coronel de Infantaria, e que pelo Thesouro Geral das Tropas d’esta Côrte se pague o competente Soldo d’esta Patente, na conformidade do que se tem praticado com o da Patente de Sargento-Mór, concedida por Decreto de 14 de julho de 1811. O Conselho Supremo Militar o tenha assim intendido e faça n’esta conformidade expedir os Despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro em 26 de julho de 1814. Com a rubrica do Principe Regente”.

Sobre ele escreveu Foy (general Francês) nas suas memórias.

«This story passed for fact during the reign of John V. Doubts began to be thrown upon it in Pombal's administration. The saint nevertheless retained his rank. On the accession of Queen Mary, the Colonel of the regiment of Lagos stated in a memoir, supported by documents, that St. Anthony was the oldest captain, not only in that corps, but in the whole army, and that in fact, he had then been a captain ninety years. After such a length of service, he thought the least that could be done was to appoint him major : but the court did more, and by a royal decree of the month of January 1780, St. Anthony of Padua received a commission of general officer. This promotion was purely honorary. The general's name remained inscribed in the list of the regiment of Lagos as captain, and his annual pay of three hundred thousand reais, (about 801. sterling,) as fixed by Don Pedro II., continued to be received in his name. This sum was expended in decorating his chapel, and defraying the cost of his festival. After the invasion of Portugal by the French in 1 807, General Junot desired to have a statement of the brevets, commissions, and services of St. Anthony. He was determined not to be less generous to him than the sovereigns of Portugal had been ; the pay of the old captain of Lagos was scrupulously delivered to the colonel till the moment when, by the new organization of the Portuguese army, the regiment ceased to exist


Maximilien Foy, History of the War in the Peninsula, Under Napoleon, 1827, p.238

Esta imagem de Santo António encontra-se actualmente na capela de N.ª Sr.ª da Vitória, dentro do recinto do Museu do Bussaco. A imagem acompanhou o regimento nº 19 (Cascais) , durante a guerra peninsular, sendo por isso que ostenta ao peito a medalha da Guerra Peninsular. Outra imagem que foi condecorada com a medalha da Guerra peninsular foi a Nossa Senhora do Carmo que se encontra em Valença. 

http://lagosmilitar.blogspot.com/2008/05/santo-antnio-o-militar-mais-famoso-do.html

Durante as guerras Napoleónicas, Cascais permaneceu neutro e Junot, o comandante da primeira invasão, instalou a sua base na cidade. Em 1808, ele foi forçado a assinar a sua rendição. O 19º regimento de infantaria, sobre a protecção divina de Santo António, partiu da Cidadela em 1810 para a batalha decisiva contra Napoleão - a Batalha do Bucaço. A estátua de Santo António na Cidadela ainda continua a ser venerada. Foi em Cascais, durante os últimos anos do século XIX, que a Família Real começou e ir à praia. Era um costume que se tornara muito popular por toda a Europa, e Cascais, devido ao seu clima ameno, era o local ideal.

http://www.portugalvirtual.pt/_tourism/costadelisboa/estoril/historyp.html

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 Santo António de Lisboa, Tenente Coronel

Tenente-Coronel do Exército Português
e Herói Condecorado da Guerra Peninsular
Na capela de Nossa Senhora da Vitória da cidadela de Cascais venera-se uma imagem de Santo António, ostentando a Cruz de Oiro das Campanhas da Guerra Peninsular e um manto com o distintivo de granadeiro.
Não vá supor-se que se trata de fantasia de qualquer devoto que, saindo da vulgaridade, cumprisse promessa feita, adornando a imagem do Santo com insígnias militares lavradas em oiro fino.
Santo António tem um posto elevado no Exército Português. É tenente-coronel.
O glorioso taumaturgo nasceu em Lisboa aos 15 de Agosto de 1195.
Fernando de Bulhões - que viria a ser o grande Santo António - tinha sangue real e descendia duma nobre família de guerreiros. É certo que o Santo, entregue desde a mais tenra idade à vida religiosa, nunca pegara numa espada, nem sentira o peso duma armadura.
Portanto, quem poderia prever que o pacífico Santo António de Lisboa, após uma penosa existência de sacrifício, sempre metido numa piedosa humildade, a pregar aos ímpios a palavra de Deus, viria a ser um santo guerreiro como S. Tiago ou S. Jorge ?
Saiba-se, no entanto, que em 24 de Janeiro de 1688, um alvará de D. Pedro II dava Santo António como tendo assentado praça no 2º regimento de infantaria de Lagos.
Quinze anos depois, o Santo era promovido ao posto de capitão, como consta dos respectivos registos. A devoção dos soldados pelo glorioso taumaturgo era tão fervorosa, que nas casernas do quartel não havia caixa nem mochila que não tivesse a imagem de Santo António.
Este culto arreigou-se tão profundamente, que depressa chegou a Cascais, entrando no quartel de infantaria nº 19.
Santo António foi herói da Guerra Peninsular. Tendo acompanhado aquele regimento, tomou parte em todos os combates desde 1810 a 1814.
Dele nos fala o major Augusto Carlos de Sousa Escrivanis, governador da Praça de Cascais, nas «Investigações Históricas do Regimento de Infantaria nº 19».
Depois de descrever a acção do Santo na batalha do Buçaco, travada a 27 de Setembro de 1810, no assalto a Badajoz, nas batalhas da Vitória e em muitas outras, o major Escrivanis narra o projecto concebido pelos mais arrojados soldados franceses de aprisionar Santo António. Os franceses conseguiram o seu objectivo, mas uma vez conhecida a prisão o regimento 19 de infantaria cai como se fosse uma avalancha monstruosa sobre os franceses. Momentos depois o prisioneiro era libertado. E a força poderosa que produziu tantos heroísmos dimanou, sem dúvida, de Santo António.
Conta ainda o mesmo ilustre oficial que, em dias de exercícios, o Santo era levado para o pote de água e, ao primeiro toque para formar o regimento, as praças bradavam: «Abona Santo António de Cascais». Chovendo, não havia exercício, e o Santo era tirado da água e muito festejado.
Não há nisto sombra de irreverência. O culto do taumaturgo não saía diminuído destas usanças ingénuas. O certo é que, sem a imagem de Santo António, o regimento de infantaria nº 19 não teria levado tão longe a sua temeridade. Sentindo-se guiados e protegidos por tão prodigioso comandante, os soldados de Cascais sentiam-se capazes de enfrentar todos os perigos e desafiar a própria morte.
Após a Guerra Peninsular, quando se premiava os feitos dos mais denodados combatentes, Santo António não podia ficar esquecido. Além da honrosa condecoração da Cruz de Oiro nº5, comemorativa da campanha, foi promovido, por distinção ao posto de tenente-coronel.
A corte portuguesa encontrava-se, nessa altura, no Brasil, mas isso não impedia que Santo António obtivesse a sua justa promoção. Mesmo no Rio de Janeiro, o Príncipe Regente assinou o decreto que o elevou ao posto de tenente-coronel de infantaria.

revista A Esfera de Agosto de 1944

Kaúlza de Arriaga

 

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